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Sub Realidade
Porque, às vezes, a realidade pura é um fardo muito pesado.
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Sexta-feira, Julho 18, 2008
Pequeno ensaio sobre o desrespeito.
Convido vocês, amigos, a imaginar o cosmo por um segundo. Por mais que tentemos toda sua imensidão jamais será catalogada ou mapeada. Deixando nos a imaginar quantos milhões de pontos estão em conexão e como muito mais deles estão esperando o que se encontra ao lado brilhar para roubar lhe a luz e tentar fazer dela a própria.
Esses pontos são como pessoas que têm falta de caráter, covardia e mesquinhez necessárias para se achar a última bolacha do pacote -ou então O ponto luminoso- e desconhece o significado de VIDA.
Viver, pra mim, é falar, conversar, brincar de (e com) deus, assumir os erros, evoluir, ler, aprender, amar, perdoar sem jamais perder o respeito pelo próximo. Afinal, podemos precisar de um ombro amigo ou estender a mão a desconhecidos quando necessário.
O desrespeito é o que mata nossas relações, ele as deixam empedradas, enrugadas, possessivas, obssessivas e nos fazem querer ser donos da verdade.
Agora, retornando à idéia de cosmo imaginem um ponto roubando o brilho do próximo numa cadeia, num círculo vicioso, numa simbiose. Viveríamos numa escuridão e quem sabe nela revelaríamos nossa essência, desejos cruéis e ignóbeis que guardamos para descarregar naqueles que tentam nos fazer feliz. No começo eu pensava que era sem razão, mas agora eu entendo.
(18/07/2008)
Diga umas boas verdades:
Domingo, Julho 13, 2008
Sobre o desistir.
Primeiro, por mais que demore acordo dum sono pesado e sinto como se toda aquela situação fosse um pesadelo: primeiro tenho o flash, o pensamento, o dèja vu ou algum outro nome para aquela lembrança que traz consigo um peso enorme. Depois passo a acreditar que a água fria vai me tirar dessa: lhufas!
Ela só me deixa mais desperto sobre uma realidade que me atinge como um trem e faz chorar, recordar todas as palavras que eu nunca quis ler, ouvir ou sentir na pele. Cada vez que uma lágrima desce pelo meu rosto - aquele rosto redondo e eenrugado pela água- é como se um pedaço de esperança descesse morro abaixo e secasse naqueles dentes pressionados, juntos, naquele lábio seco que sangra.
Junto com a sensação de que aquelas palavras e desesperança não passaram e acredito que tampouco passarão- eu continuo a pensar que tudo se encaixará, os mais esperançosos chamam de fé em alguma coisa e os céticos de burrice- por isso no fundo eu sei o próximo passo: a coisa seguinte ao cair é se machucar e mesmo com a dor eu me levanto, compro um chocolate e canto Balão Mágico para disfarçar a dor que rasga o meu ser no meio e deixa rastros de mágoa e amor por onde passo.
Por último eu ajo! Penso como um desesperado pra ser notado, pego meu coração com as mãos sujas de poeira daquele chão que bem conheço -o lugar onde fiquei a maior parte do tempo- e dou uma disfarçada no sorriso meia boca para que aquela pessoa não pense que sou um bebê chorão, uma criança ou um metidinho a intelectual despreparado para a vida. Ajo de mil quinhentas e quarenta maneiras diferentes para poder trazer o que chamamos de luz para a vida, passeio por entre nuvens, pego espinhos com os dentes para preservar a pureza de uma rosa, corro para vencer o demônio contra as coisas que me ferem, deixam mal e por mais que acredite na queda do inimigo e na preservação do coração como coisa que não se machuca e exala amor, fica cansado e não mais raciocino sobre os próximos passos e em que direção vai.
Num ato de suicídio da moral,coloco uma venda nos olhos e tento caminhar seguindo o som de um coração já fraco e vejo que está perdido no meio do caminho, aquele velho e bom caminho que sempre tento evitar: o de desistir.
Aquele que abre a porta da decepção e deixa a tristeza te engolir: E por mais que eu tenha fugido dele todos os anos, meses e dias que passei a tentar tentar tentar e nunca conseguir agora sei que a hora de se entregar chegou. A hora de ser cego, surdo, mudo e calar o sentimento com aquele silêncio que rompe todas as barreiras conhecidas no nosso mundo. Demora, mas acostumo com a idéia de que desistir é ficar em silêncio e abaixar tudo o que construi para poder amar uma pessoa. É estar em silêncio na sala, quarto e cozinha. Somente com um pequeno ruído, aquele velho barulho de água a pingar numa pedra tentando rompê-la e nunca conseguindo, porque eu me fechei ao redor dele e agora estou deitado esperando e sonhando com alguma coisa boa dentro daqueles momentos que sobraram, sejam eles os bons ou aqueles em que chorei sozinho num quarto escuro.
Fabio Lourensetti Bocchi, 13/07/2008.
Diga umas boas verdades:
Segunda-feira, Junho 23, 2008
Poesia em Movimento
Saia...
Ande por entre árvores e pessoas.
Conheça a natureza e sua beleza.
Retorne ao Ego.
Faça valer a pena sua existência.
No Hay Banda! Porém, isso não é uma imitação.
Isso é o que chamamos de vida!
O show da realidade ao vivo e a cores.
Ame...
Faça um coração se apaixonar.
Derrame lágrimas se preciso.
Porém, esboçe um sorriso sempre.
Mesmo que pareça impossível.
Procure...
Seja mais um entre milhões.
Faça o show parecer realidade!
Entenda...
As sutilezas e belezas do amor puro e idealizado.
Você não viverá eternamente.
Não verá impérios ruírem e pessoas nascer.
Aproveite aquelas que estão em seu tempo.
Sinta...
Despreocupe-se com o relógio.
Não viva além, nem menos.
Faça o minuto valer a pena .
Entretanto, caso falhe, espere.
Pois outros virão.
O Carpe Diem mente.
Porque não são os últimos minutos.
Tampouco os primeiros.
Sente-se, respire e viva!
Fábio Lourensetti Bocchi 14/02/06
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Segunda-feira, Junho 16, 2008
Preto e Branco
Os ponteiros dançam uma ciranda embriagada no relógio. Quem não tenta entender a matemática lunática do tempo?
Hoje se acrescenta um mês novo no calendário, uma descoberta em frente ao espelho. É você: verde, azul, roxo, vermelho e anil.
Essas são todas as coisas que passam por aqueles numerozinhos e você tenta lembrar o que fez e como dará o passo seguinte. São aquelas velhas folhas - que também possuem numerozinhos - e você simplesmente joga fora. Vai se para o lixo aquele velho mês, e tem todo outro a sua frente: mais verde azul e roxo vermelho e anil.
No lixo, junto àqueles meses, está pote de sashimi que ainda tem a marca dos dedos daquela garçonete no quimono, que fica a te olhar. Tudo no lixo!
As cores do mês, os dedos envergonhados, e tudo mais o que você jogou no lixo ignoram a vida numérica dos meses passados, e parto dando saudações àquela cara em preto e branco, que fica a me olhar esperando a gorjeta.
Diga umas boas verdades:
O grupo islandês Sigur Rós lançou um cd com o singelo nome de ( ), no qual a idéia era que nós, ouvintes, imaginássemos a letra enquanto eles nos cediam a melodia. Eu ouvi esse cd e fiquei a me perguntar o que escreveria numa folha em branco nesse momento de minha vida enquanto estou a pensar e existir como pessoa.
Sou tomado por alguns pensamentos cintilantes como vaga-lumes em algumas horas e poços de negrume indescritível em outros, deixando-me a mercê de um humor instável e insensato.
Um passeio pelos mundos, eu chamaria:
Tenho meu umbigo cheio de uma coisa verde e que irradia uma luz: daí eu saio na varanda e vejo pássaros alçando vôo em meio a uma chuva, colhi sementes de girassol no inverno, passeei com um gato numa coleira anti-pulgas em cima de estrelas cintilantes, puxei o rabo do cometa Halley, sai pra beber vodka barata e profanar o Bob’s em alguma esquina desse mundão, hoje eu sou gás, água de chuva mineral e resto de ácido clorídrico, dou adeus aos meus fantasmas e vejo luzes brancas em túneis azuis, marco presença em multidões de todos os tipos e não me acho inferior por isso, subo em cima de caixas para recitar poesia bêbado e não acho isso feio, coleciono HQ e tenho nojo de "Tititi", sei o que me é certo e o que é errado, passeio por entre linhas, túneis, armazéns, baús, caixas, rostos, falas, tapas, socos, alianças, caras, bocas, gritos, tartarugas, cachorros, fogo, gatos, sapatos e toda a liquidez de um momento em que estou voltando para um corpo que tenho e que sei que me possui em carne, osso, espírito e força de vontade. Hoje eu sinto como se o mundo conspirasse a favor de mim e de meus passos. Hoje me vejo no espelho. Hoje. A partir de hoje.
Isso é o que eu escreveria numa folha de papel em branco e tentaria colocar ritmo para mandar pro Sigur Rós.
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Segunda-feira, Junho 09, 2008
O Limite.
Para se ler ao som de:
AC/DC – Highway to Hell
Um dia você acorda no portão dos seus sonhos e vê uma nuvem cinza rodeada pelo roxo de um céu que descarregará água até fazer carros boiar e se pergunta o porquê de tudo: de como é o cheiro da água até sobre como é a viagem no tempo. Teus passos caminham por entre sombras, ipês, árvores mortas, folhas verdes respirando seu gás carbônico podre, exalando CFC e radiação por causa de tanto laquê e necessidade do tal de MP3.
Procura uma mesa com copo, cachaça e sonhos quebrados. Vai atrás de quem partilha horas a fio numa gangorra com uma navalha semi cega no pescoço. Brinca de deus dando esmola na esquina das casas do Alphaville e se acha bom por causa disso.
Tem uma pele de onça pintada como tapete de entrada e acha isso lindo, caça raposas no frio inglês e ignora o filho da empregada precisando de remédio pra labirintite. Aloja os parentes na parte da senzala e se diz altruísta. Banaliza lutas sociais e discrimina quem é soropositivo. Acha legal ser filiado a Visa e gastar mil reais na Levi´s.
Desiste de sonhos como quem brinca de vídeo game com a vida. No final, simplesmente tapou a visão com uma venda negra e achou legal brincar de pique esconde no labirinto que é a vida.
Abraça a solidão e faz dela a liquidez necessária para se embriagar, como um veneno. Sente a necessidade de escuro, e, no entanto corre na luz do dia como se fosse um cachorro fugindo da carrocinha. Abraça postes, quebra litros vazios no meio da rua, assiste rinhas de cachorro, aposta a mulher e acha isso legal. Joga sonhos para os porcos, esperando que os maiores esfarelem em pequenos resíduos.
No vácuo de si mesmo sabe que segue o postulado de dor e descrença que os amantes têm. Correu pelo dia inteiro, buscando alguma coisa que não sabe –ou não admite- o que é, e agora pára em frente a algum portão acinzentado com pichações ilegíveis e dorme.
Como um viciado em decadência, sabe que irá acordar e reproduzir a decadência: seguindo os cheiros podres, as coisas indignas da sociedade, não hesitará em dançar em cima de teus valores, crenças, doenças e dentes podres. Paquerará a meretriz da esquina e abusará dela como pedaço de carne. Está deitado na própria cama de gato e já não sabe mais como sair dela.
Pessoas passaram pelo mundo e deixaram esse postulado: faça o que é ingrato à sociedade e se foderá. E como um crente adventista você acredita nisso e na sua garrafa de conhaque. Passa horas pensando em como será seu próximo passo para o buraco, e isso o faz feliz.
Mais uma noite se aproxima, e você busca um chão para se deitar e cobrir sua pele com jornal de ontem. Dormir em cima de seu cheiro, sonho e se der em cima de uma flor. Espera amassá-la com teu peso, assassiná-la com bafo de cachaça e depois comer o fim do caule verde e com aquele pedaço de flor pendurado. Conta as primeiras dez estrelas e dorme um sono pesado sem sonhos.
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Terça-feira, Junho 03, 2008
Pesadelo.
Hoje eu havia morrido. Havia comprado lâminas, as afiado bem, amaciado a carne do pulso com água quente e terminado a pilha de bilhetes para meus amigos. A lâmina correu solta pelos pulsos e de um suspiro até o chão foram segundos que ficaram numa pequena eternidade.
[Dizem que] Quando cometemos suicídio nossa alma sai do corpo e vaga pela existência por muito tempo antes de descer para o inferno. Eu estava a passear pelo meu velório quando vi todas as pessoas com seus bilhetes em mãos e tentando escutar o que elas diziam sobre as coisas escritas e em alguns estas despertam raiva, lágrimas, risos e diversas emoções. Por estar morto, desencarnado na verdade, eu passeava pelas vidas alheias e tentava de algum modo tocá-las no momento mais bonito de nossa convivência.
Todas as baladas, confidências, brigas, pazes, fofocas, lanches, cervejas, cigarros, companhias, viagens e cada pedaço de céu/inferno que eu vivenciara com todos os amigos de graduação, os fora dele e o convívio com meu pior problema: a dor que nunca superei. A perda que eu tentei, tentei, tentei e não passou.
Eis que dentro de um salão que não era muito grande, tarde da noite -naquela escuridão infinita- minha dor se personifica. Dentro de minha desencarnada visão, eu vejo o corpo a levantar do caixão e nada entendo. Com os antebraços abertos e pedaços de algodão a cair, eu tombo do caixão buscando essa dor, essa completude que me levou à morte. A loucura que eu abracei inteiramente e me deixei seduzir por uma vida, quando ela não foi nada comparado com outras partes. Aquela loucura que tinha me empurrado a isso estava lá, personificada.
Assim como levantou, o corpo caiu. Caiu com o caixão no chão num baque surdo, e de lado meu pescoço ficara preso à uma das bordas, fazendo pressão. Com as atenções divididas, meu espírito investia contra meu corpo, tentando levantá-lo antes que fosse tarde demais. Enquanto as pessoas começavam a ler os bilhetes novamente, reler e apontar para a loucura no canto da sala. Já não sabia o que fazia: se levantava meu corpo ou investia contra as pessoas que iam acabar com a loucura alheia, com aquela coisa ruim que fizera me tirar a própria vida.
No primeiro soco disferido a ela, acordei.
Havia caído da cama e percebido que tudo não passara de um pesadelo.
Ainda bem.
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Domingo, Junho 01, 2008
Hora de sorrir.
=]
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Quinta-feira, Maio 29, 2008
E de tudo fica a lágrima, a sensação de que o passado não pode ser mudado e que lidar com angústia é necessário, emergencial na verdade. Daquilo que era amor fica a saudade, o cheiro inexistente, a desesperança e as músicas de botequim.
No final tenho a sensação de que preciso agradecer.
Seja deus, jeová, ogum ou oxalá.
Mas preciso.
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Um Lugar Além dos Olhos
(ou a mágoa que ficou duma doença)
Era algum lugar entre o arco-íris e o negrume do vazio, mas eles estavam lá. Os dois sempre se olhavam, juravam amores e brincavam de rodar naquele pôr do sol pairando sobre o gramado verde. "Eles estão apaixonados" dizia a primeira estrela para o sol, que já estava de partida; em resposta ele sorriu e deixou um último facho de claridade sobre os dois amantes.
Aqueles dois corpos, mãos, pés, cabeças, lábios doces e calejados que se procuravam sempre e, também de fel, que de mel viviam. Passeavam por entre sombras, luz, batuques de atabaque, do som de um velho berimbau e um cachorro a ladrar. Eram duas pessoas e alma de milhares que o mesmo caminho desejou.
Durante o caminho vira uma rosa, uma rosa de um vermelho tão brilhante que emanava vozes, hinos, e tinha folhas verdes viva ao redor sem espinhos e essa rosa falava a língua dos anjos, um suave murmúrio dizendo o quanto eles deveriam estar juntos naquele momento, pedaço de tempo e espaço.
Deveriam estar ali porque foram feitos um pro outros. Eles estavam iluminando algum lugar existente entre o arco-íris e a escuridão.
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Quarta-feira, Agosto 29, 2007
(Parte 4 de um momento sem mim)
Passo horas a respirar. Sinto o toque da brisa suave no meu rosto, o cheiro das folhas inexistentes, dos sinos que escuto além de um mar que já secou, do vinho que está a envelhecer e virar doce azedo espumante. Tudo isso está ao meu alcance. Dentro de uma cabeça que está cansada. As flores já não desabrocham mais, os remédios não fazem efeito e estou sem dormir.
As lembranças já não me fazem relaxar, e teu lado da cama está vazio há mais de anos, porém, fico esperando um retorno, resgate dos dias que vivemos – ou não- e ficaram na minha memória. Esse discurso ribomba como um trovão em meus dias, e ele estão num círculo infinito, porque eu continuo a olhar, a sentir, cheirar, respirar, andar... A viver.
Caminho como uma barata atordoada pelo apartamento, passeio pelos livros, discos, pela modernidade dos dias decadentes que vêm me assombrar. Você não está comigo, isso é um fato, a minha gravata está velha, meu terno rasgado, meu mural de fotografias não possui mais rostos e os corpos tornam-se vazios dentro daquela parede negra. Alguns pontos amarelos, verdes, marrons, azuis e vermelhos. Nada mais.
Seria bom demais ficar lamentando o passado, as mordidas do acaso, o tropeço do destino, a curva do sentimento ou qualquer coisa que esses astrólogos falem pra nomear a decepção. Tudo seria simples demais se pudéssemos ficar deitado e chorando até as lágrimas nos afogar.
Entretanto não é, e o sol da manhã traz o som, cheiro e jeito de evolução, de máquina social ou qualquer outro termo Marxista que venha nesse pacote “hard day night”. Em frente ao espelho, eu começo a me arrumar, buscar em minha memória o que fazia, em que trabalhava, qual o dia do pagamento, que remédio tomava, qual o número do meu CPF, da habilitação, qual a cor do meu carro.
Coisas simples que deixei pra trás por sua causa. Ou não.
O ônibus vem em minha direção, e ele parece lotado. Tem um cheiro de ovo amanhecido na fritura de dias. As pessoas parecem estar descascando, derretendo, unindo-se numa massa uniforme e fétida.
Um senhor toca meu ombro e pergunta as horas.
Não consigo responder e começo a chorar. Perdi o sentido da fala.
Dentro de minha boca, existe um vazio da minha língua e dos meus dentes.
Com os olhos marejados das lágrimas, adentro o ônibus. Com meu terno rasgado, short preto, gravata de época e um grito sufocado esse ônibus parte para algum lugar.
Diga umas boas verdades:
Segunda-feira, Agosto 13, 2007
Do amor*
Flávia Merighi Valenciano
Noite qualquer, iguais a todas desta cidade cinza. Carros enfileirados, berrando desesperados, e a menina que tenta atravessar a rua e nunca consegue joga todo seu peso sobre os ombros. Augusta, meninas cansadas de ficar em pé e de pedir o que não querem. Sentei, pedi uma vodka e comecei a dizer que tô-de-saco-cheio-desta-vida-de-merda, luz, câmeras, ação. Você não vai sentar? Olha, não faça essas coisas pra me irritar, você com o seu ascendente em gêmeos. Não poderia ser pior: ascendente em gêmeos e antenado nas maravilhas do novo milênio. Foda-se o novo milênio, a minha alma está cansada demais.
Bebi a vodka num gole e andamos até o próximo bar, tentando nos sentir à vontade com as mãos jogadas no ar. Enquanto corríamos descalços naquela praia imensa, num tempo onde tudo parecia dar certo, prometíamos que nunca, nunca podemos soltar as nossas mãos, vamos fazer um pacto em frente a esse mar de agosto.
O próximo bar era escuro e sujo, cheio de gente vestida de preto e hormônios à flor da pele. Que lugar mais vulgar pra se falar do fim de qualquer coisa, de algo que foi e que não é mais. É triste quando qualquer coisa acaba, porque é uma pulsão a menos neste mundo desgraçado. Sentei, você não vai sentar de uma vez? Pedi outra vodka e tentei beber o mais devagar que pude, esperando e esperando a sua voz pedir um gim-tônica com bastante gelo, por gentileza.
Vozes iam e vinham à minha cabeça, que doía toda, dentro, fora. Mas todas as dores do mundo estavam em mim, em algum lugar, tirando meu ar e tremendo meu corpo inteiro. Olha pra mim, precisamos entender o que aconteceu, tenho que te dizer o que sinto sobre tudo isso. O que você sente o quê? todas as coisas jogadas fora, e eu sempre pedindo, o tempo todo te pedindo coisas, palavras, sentidos, como se precisasse pedir pedir pedir por tudo que vem de você.
Os carros soltando aquela fumaça escura e suja e asfixiante e as meninas subindo nos carros enquanto você me olhava com a sua cara amarela e vazia. Vai acabar, eu sabia, sabia que ali seria o fim. Era um vulto dentro de você que me dizia, uma falta de luz, de cintilância, de dor. Amanhã posso acreditar em tudo outra vez, que o amor, é claro que existe! o amor não pode ir embora pra sempre, acaba voltando, batendo à porta, querendo um canto pra ficar. Amanhã, acredito que tudo deu certo e que não existirão mais vozes na minha cabeça, e que meu desespero de ficar sozinho era uma invenção tola, inspirada numa peça de Nelson Rodrigues. Amanhã, depois de hoje, as meninas não ficarão em pé até o dia seguinte e não serão cuspidas e pisadas até o dia seguinte, e todos os carros estarão dentro de suas caixas fechadas e medidas, e as pessoas correrão pelas ruas de mãos dadas, fazendo promessas que serão eternas. Então um vento gelado derrubou o papel amassado em cima da mesa e o som dos seus passos ressoou profundamente em mim, no único lugar que não estava vazio.
*Conto escrito em homenagem ao escritor Caio Fernando Abreu. As marcas estilísticas, a temática e todo o sentimento aprendidos pelas infinitas leituras e releituras de seus contos, que são como os dragões que não conhecem o paraíso.
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Quinta-feira, Agosto 09, 2007
(Parte 3, de um momento sem mim)
Ao lado de minha cama, tenho um porta retrato vazio. Já não lembro mais o que coloquei lá em épocas remotas, ou em dias próximos - e passados. Ele fica a enfeitar o criado mudo comprado na lojinha de esquina, já tão velho e decrépito, e possui um fundo branco, tão branco, que às vezes incomoda para dormir. Esse branco me traz lembranças - gosto de vodka, vinho barato, cheiro de sua camisola, pele, suor, corpos que se encontram e deixam marcas, tão profundas que poderias ler meu corpo em braile - de nossos dias no parque, na praia vendo os barcos na orla, brincando de ser criança, adolescente e adulto numa tarde chuvosa no meu apartamento. Tudo conectado ao branco, àquela paz que sentia com e por você.
Entretanto, as lembranças são pequenas perto de minha realidade. Você não está mais ao meu lado, brinca de fugir dos meus afagos e juras ao pé do ouvido – você acharia brega, eu sei-, passa dias –tantos, que até deixei de contar- sem ligar, dar notícias, pelo menos um “olá, como vai?”. Deixa a nossa história passar despercebida, sem consideração, sem amor nem consideração. Toda essa coisa me dá desespero.
A esperança que seu descaso alimenta em mim –sei que também acharia ridículo- é tamanha, que eu deixo o porta retrato vazio: troquei mãe, irmão, churrascos, feijoadas, encontros de infância-adolescência-faculdade, dias de pôr do sol, lua cheia, negrumes poéticos e tudo o mais para trás. Tudo isso para reservar aquele espaço à nossa volta, para nossa nova foto, esperança, amores e juras.
Deixei esse espaço em branco para tudo isso.
Todavia, enquanto não voltas, fico a admirá-lo sempre e nas minhas rezas peço a alguém que a faça voltar, que a resgate das ruas escuras e frias e venha dormir comigo, tocar seu corpo como antes e esquecer o passado. Buscar novas alternativas, construir coisas novas contigo. Mesmo a me torturar, o encaro para dormir, com ar desafiante e olhos fixos. Só que, não parece ser meu amigo, não traz a paz necessária para uma noite de sono e sonhos. Fecho os olhos e fico a rezar para alguém, dentro da escuridão de meus olhos eu a vejo e brinco com as lembranças. Dentro de uma paz e recordações efêmeras.
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Domingo, Agosto 05, 2007
(Parte 2, de um momento sem mim)
É noite fria. Ela me engole, enquanto fico sentado num negrume iluminado pelo luar desse outono permanente em minha vida. Já não sei mais que horas são, quando foi a última vez em que fui ao banheiro, qual é o cheiro das amoras no verão, quais são as pequenas epifanias de um domingo no parque, ouvindo risos de crianças e juras eternas dos casais que ficam por lá, o que deixou, ou se passou, no mundo durante o tempo em que estou a admirar o vai e vem desse relógio maluco: o dia que se confunde com a noite, e a noite que atravessa o poente literário que marca minh´alma.
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(Parte 1, de um momento sem mim)
Esse é o momento. É quando você está só e o mundo passa a girar freneticamente em seu sono, sonhos e desejos, ele passa de uma forma arrebatadora e brusca. Arranca os sonhos, destrói a semente da esperança e deixa um vazio: aquela sensação de que nunca mais nada será a mesma coisa e todos estão contra você, deixando o mundo fosco, tirando dele as suas cores e formas. Deixando um borrão negro na sua história.
Agora está nevando, e as pratas da casa não brilham mais. A lareira já não queima o fogo fátuo da felicidade e nessa casa já não impera a união, igualdade e fraternidade. Estou rodeado de pó. As baratas sobem pelos móveis inexistentes e já não tenho pressa em matá-las: por que, se nada me fizeram?
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